sábado, 29 de janeiro de 2011

Vincent - Tim Burton


And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming.
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor

Shall be lifted--- nevermore!




sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Literar




Eu aqui, nessa ruminação de sentimentos. Num esforço contínuo... É tão bom literar você. Literar seu sorriso, sua voz, sua energia. Literar a possível sensação de estar em você. É tão impossível estar e não desejar, não querer intensamente. Os teus olhos, os teus lábios... Literar litros, teu caminhar. Transparecer, é tão simples esconder! Ver de longe, desejar de perto. Tocar, jamais. Jamais.


Aos lábios cardíacos que tanto desejei.




Como pode a boca dizer sim e o coração dizer não? Do que vale poder ver e não poder tocar? Arrepio. Cada centímetro se esvai, cada descoberta me atrai, todo eco se desfaz. Nostalgia. O coração freneticamente palpita, você lá; antropofagicamente devorado, transformado em totem. Espelho sem verdade, numa mansidão perigosa, escondido, disfarçado. Fantasticamente diferente, desgraçadamente igual. Última vez, o fruto de toda impessoalidade, a raiz de todo o mal. Em linhas tortas, acreditei. Em dez dias. 365 depois, símile.





domingo, 23 de janeiro de 2011

Esperando...


impaciente, são minhas últimas horas.

No Novessentosnove!



Dor cintilante

Queria saber onde é, onde começa, como desliga! Não sei o que há, não sei o que é, mas está aqui o tempo inteiro. Como pára? Não sei onde fica (mais) o Norte, me perdi e continuo caminhando. Que maneira? Absolutamente, perdi. Feriado pra recolher. Me. Sais minerais, brotar. Saudade. Falta. Amigas e amigos também. Tempo perdido. Definitivamente só. Sem planos, sem terra. Na garganta, uma bola de pêlos. E nos olhos, marejados, asas. Queria, simplicidade. Dissociativo. Esquecer, por todas. Fraca, a mente. Socorro.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

...eu quero tanto...

nunca desejei tanto...
...tanto menos ser assim
não desejo cessar-viver, desejo apenas cessar-sofrer.

Deus,
arranca de mim esse fôlego de vida.






sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"Despedir dá febre."


“No me despedir, tive precisão de dizer a ele, baixinho: –“Por teu pai vou, amigo, mano-oh-mano. Vingar Joca Ramiro...” A fraqueza minha, adulatória. Mas ele respondeu: – “Viagem boa, Riobaldo. E boa-sorte...” Despedir dá febre.”

“Como no perdido mal ouvi partes do vozeio de todos, eu em malmolência. – Tomaram as roupas da mulher nua? Era a Mulher, que falava. Ah, e a Mulher rogava: – Que trouxessem o corpo daquele rapaz moço, vistoso, o dos olhos muito verdes... Eu desguisei. Eu deixei minhas lágrimas virem, e ordenando: – “Traz Diadorim!” – conforme era. – “Gente, vamos trazer. Esse é o Reinaldo...” – o que o Alaripe disse. E eu parava ali, permeio o menino Guirigó e o cego Borromeu. – Ai, Jesus! – foi o que eu ouvi, dessas vozes deles.

Aquela Mulher não era má, de todo. Pelas lágrimas fortes que esquentavam meu rosto e salgavam minha boca, mas que já frias já rolavam. Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus-buritizais levados de verdes... Buriti, do ouro da flor... E subiram as escadas com ele, em cima de mesa foi posto. Diadorim, Diadorim – será que amereci só por metade? Com meus molhados olhos não olhei bem – como que garças voavam... E que fossem campear velas ou tocha de cera, e acender altas fogueiras de boa lenha, em volta do escuro do arraial...

Sufoquei, numa estrangulação de dó. Constante o que a Mulher disse: carecia de se lavar e vestir o corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de Diadorim, casca de tão grosso sangue, repisado. E a beleza dele permanecia, só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis... Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim...

Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse...

Diadorim – nu de tudo. E ela disse:

– “A Deus dada. Pobrezinha...”

E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu – não contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha...

Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero.

O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

– “Meu amor!...”

Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.

A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa-senhora. Só faltou – ah! – a pedra-deametista, tanto trazida... O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristamente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: – “Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba...” Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam. Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão.

Ela tinha amor em mim.

E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi.

Aqui a estória se acabou.

Aqui, a estória acabada.

Aqui a estória acaba.”

“Daí, mais para adiante, dei para tremer com uma febre. Terçã. Mas o sentido do tempo o senhor entende, resenha duma viagem. Cantar que o senhor fosse. De ai, de mim. Namorei uma palmeira, na quadra do entardecer...

Na morna, baqueei, não podendo mais. Me levaram, por primeiro, de revexo. Depois me botaram para dentro duma casa muito pobre. Desembestei doente. Por último, como perdi meu conhecimento, estavam me deitando num catre.

Que foi febre-tifo, se diz, mas trelada com sezão, mas sezão forte especial – nas altíssimas! Que a febre que eu tinha era tamanha tanta, como nunca se viu – o Alaripe depois me disse ; que no decorrer dos acessos eu tresvariava.”

Grande Sertão: Veredas - João guimarães Rosa (1956)


E eu achei que isso não existia...